Atilio Boron,
20/01/2026,
Página 12 (10/02/2025)

O presidente dos Estados Unidos segue trabalhando a todo vapor para terminar de sepultar o pouco que ainda resta do outrora tão celebrado — pelos governantes de seu país, assim como pela imprensa hegemônica e pelo pensamento oficial da academia — “ordenamento mundial baseado em regras”. Marcos centrais desse processo de progressivo desmoronamento da superestrutura ideológica do imperialismo norte-americano foram a ofensiva da OTAN contra a Rússia, em afronta a um princípio elementar da Carta das Nações Unidas, qual seja, o direito de todos os países à sua segurança nacional. A isso deve somar-se o genocídio e a limpeza étnica que o regime racista israelense continua a praticar com total impunidade, graças ao amparo e à proteção que lhe brindam as desacreditadas “democracias” ocidentais — na realidade, abjetas plutocracias mal disfarçadas pelos insossos rituais de um processo eleitoral irrelevante.
Outro marco de enorme importância foi o ataque à República Bolivariana da Venezuela, o bombardeio de Caracas que afetou quase 500 residências na área próxima ao Forte Tiuna e o insólito sequestro do presidente Nicolás Maduro Moros e de sua esposa, Cilia Flores, deputada da Assembleia Nacional. Em seu desvario, o ocupante da Casa Branca publicou em sua rede Truth Social uma postagem em que se definia como “Presidente em Exercício da Venezuela” e, na linha seguinte, como o “47º Presidente dos Estados Unidos da América”. Trump nos lança numa viagem sem etapas ao sombrio mundo hobbesiano da primazia do mais forte.
Esse colapso ganhou novo fôlego com a troca de mensagens de hoje entre Trump e o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, e o presidente da Finlândia, Alexander Stubb. Trump responde a Støre dizendo que, uma vez que seu país, a Noruega, decidiu não lhe conceder o Prêmio Nobel da Paz — apesar de ele ter posto fim a mais de oito guerras — já não se sente obrigado a pensar apenas na Paz, mas no que for mais conveniente para os Estados Unidos. Em seguida, acusa a Dinamarca de não ter sabido proteger a Groenlândia dos avanços que, segundo Trump, Rússia ou China teriam feito ali e, além disso, de carecer de um “direito de propriedade” sobre esse território.
“Nenhum documento escrito confere à Dinamarca a propriedade da Groenlândia”, diz em seu texto, e o único elemento que justificaria sua reivindicação seria “um navio que aportou nesse território há trezentos anos”. O fecho dessa missiva é a afirmação de Trump segundo a qual “ninguém fez mais pela OTAN desde sua fundação” do que ele, e que “chegou a hora de a OTAN fazer algo pelos Estados Unidos”. E conclui com uma sentença bombástica: “O mundo não estará seguro até que tenhamos o controle completo e total da Groenlândia”.
Dito isso, convém recordar que, devido ao degelo do Oceano Ártico, a Groenlândia tornou-se uma região estratégica para as novas rotas comerciais, principalmente as exportações da China. O que o documento de Trump omite é que existe apenas uma base militar nessa ilha, localizada em Thule, no extremo norte da Groenlândia, e que pertence à Força Aérea dos Estados Unidos. Sua função é servir de alerta precoce diante de um ataque com mísseis, bem como monitorar os satélites que orbitam o planeta. Com o progressivo degelo, a ilha permite conjecturar a existência de ricos depósitos minerais — entre eles, terras raras, urânio e, provavelmente, petróleo e gás. Até o momento, porém, nenhuma empresa iniciou a exploração desses recursos. Há apenas uma empresa de capital canadense e dinamarquês que explora uma pequena mina de rubis nas proximidades da capital, e ainda assim com enormes dificuldades. Evidentemente, à medida que a mudança climática torne acessíveis outras regiões, a competição por esses recursos poderá se intensificar de forma considerável.
Mas o decisivo desse episódio e da mensagem de Trump é a fissura — ainda não ruptura — no seio da OTAN. Um desfecho desse tipo acabaria por produzir uma reconstrução radical do sistema internacional, ao romper nada menos que a aliança militar de um espaço socioeconômico, cultural e político — o Ocidente — que dominou amplamente o restante das nações por pouco mais de cinco séculos, mas já não o faz. Sem esquecer que, em sua fase de declínio, todos os impérios exacerbaram até o extremo sua virulência e recorreram às piores formas de violência para tentar deter o inevitável. Trump é a personificação atual desse comportamento.
Texto original publicado no Página 12.
Tradução livre para o português.




