O idioma maldito

Atilio Boron Página 12 (09/03/2026) Na reunião convocada por Donald Trump para anunciar o nascimento…

Ler mais

Paz pela força

Atilio Boron Pagina 12 (01/03/2026) Os dois “Estados canalhas” mais perigosos do mundo, Estados Unidos…

Ler mais

Paz pela força

Atilio Boron

Pagina 12 (01/03/2026)

Os dois “Estados canalhas” mais perigosos do mundo, Estados Unidos e Israel, lançaram um ataque surpresa contra alvos indiscriminados no Irã, tanto civis quanto militares. Em um ato de traição infame e desprezo pelas regras mais elementares da diplomacia, do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, a agressão ocorreu enquanto Washington dizia que seu governo estava negociando com Teerã. Essa transição para a violência armada enquanto ainda estava em vigor um acordo prévio entre dois países tem muitos antecedentes na história do sistema internacional. O mais conhecido talvez seja a traiçoeira punhalada nas costas que Adolf Hitler deu na União Soviética ao romper abruptamente o Pacto Molotov-Von Ribbentrop e lançar a súbita invasão da URSS na chamada Operação Barbarossa.

Trump e Netanyahu são dois ladrões que dispõem de um enorme arsenal de armas de todo tipo e que só as guerras que travam incessantemente há anos os salvam de ir para a prisão.

Há poucos dados que permitem avaliar a dimensão da agressão sofrida pelo Irã. Tampouco se sabe muito sobre os danos causados pela resposta desse país a diversas cidades de Israel e às numerosas bases militares que os Estados Unidos possuem espalhadas pelo Golfo Pérsico. O aiatolá Ali Hoseini Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, morreu nos ataques. Está confirmada a notícia do ataque mortal a uma escola primária de meninas na cidade de Minab (foto), localizada no sul do país, onde, no momento em que estas linhas são escritas, havia um total confirmado de 80 meninas mortas enquanto os escombros eram removidos em busca de possíveis sobreviventes. Esse ataque só pôde ser realizado a partir de uma convicção profunda por parte da liderança israelense: a de que os iranianos são uma “raça inferior”, assim como os palestinos, e que podem — e devem — ser mortos sem qualquer tipo de escrúpulo. E que as crianças, desde muito cedo, são todas, sem exceção, terroristas e assassinas em potencial com as quais não se deve ter qualquer consideração.

A justificativa para o ataque combinado dos EUA e de Israel é a recusa de Teerã em pôr fim ao seu programa de enriquecimento de urânio. O objetivo é impedir que o Irã tenha acesso à fabricação de um arsenal de bombas atômicas. Para Washington e Tel Aviv, a segurança regional só pode ser garantida pelo monopólio nuclear que o Ocidente concedeu a Israel. Trata-se de uma premissa absurda que cria as condições ideais para o interminável surgimento de guerras e conflitos de todo tipo, além de atentados terroristas e da generalização da violência. Até os ataques que o Irã sofreu em junho de 2025, esse país permitia inspeções periódicas de suas instalações nucleares por especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica. Após os ataques lançados por Israel e pelos Estados Unidos contra esse país, essas permissões foram suspensas. A imprensa falou muito sobre isso, em geral controlada pelo império e pela direita mundial, hoje identificada com o sionismo. O que essa imprensa não mencionou, porém, é que Israel jamais permitiu que esse organismo, ou qualquer missão ad hoc das Nações Unidas ou de algum organismo internacional, realizasse uma inspeção de suas instalações nucleares. Em um relatório recente, a Federação de Cientistas Americanos estimou que Israel possui atualmente 90 ogivas nucleares, contra zero do Irã e de qualquer outro país da Ásia Ocidental. É evidente que uma situação assim não é apenas injusta, mas também promove um nível permanente e crescente de assimetria militar na região. Israel, protegida pelos Estados Unidos, tem direito à defesa e à segurança; os demais países, não. O resultado: uma guerra interminável.

O objetivo da administração Trump e do regime racista israelense é a mudança de regime no Irã. Querem que o país retroceda e restaure a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, um tirano sinistro imposto pelos Estados Unidos depois que a CIA derrubou o governo do líder nacionalista e reformista Mohammad Mosaddeq, organizando o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953, o primeiro que a “agência” realizaria em sua história; o segundo foi o que executou contra Jacobo Arbenz na Guatemala em 27 de junho de 1954. O herdeiro da coroa persa, Reza Ciro Pahlavi, vive em Maryland, perto de Langley (Virgínia), cidade onde ficam os escritórios da CIA, de modo que tudo está à mão. Do exílio, o príncipe herdeiro se inspirou no “patriotismo” de María Corina Machado, a improvável vencedora do Prêmio Nobel da Paz que tentou de todas as formas que os Estados Unidos invadissem a Venezuela. Para sua surpresa, quando isso ocorreu em 3 de janeiro deste ano, não foi para chamá-la para assumir a presidência do país, mas sim para relegá-la a um discreto terceiro plano. Roma não paga traidores, dizem, e muito menos alguém tão avarento quanto Trump. Voltando ao caso iraniano, o príncipe herdeiro aplaudiu o ataque sofrido por seu país e convidou as massas a se livrarem do “regime dos aiatolás”. Seu chamado parece ter caído em ouvidos surdos, porque os mais velhos lembram muito bem que a monarquia liderada por seu pai deixou uma marca interminável de prisões, exílios, torturas e execuções sumárias, além de colocar as riquezas do país, especialmente o petróleo, nas mãos dos Estados Unidos. A revolução que pôs fim ao regime em 1979 contou com um impressionante nível de apoio popular justamente por causa das atrocidades e brutalidade de seu pai. Parece pouco provável que o filho consiga retornar apoiado por uma grande mobilização popular.

A guerra contra o Irã continuará. Para os Estados Unidos, acabar com o “regime iraniano” é fundamental porque dificultaria o abastecimento de petróleo à China, objetivo prioritário da política externa americana. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou na rede social X a agressão dos Estados Unidos e de Israel, mas também, sem qualquer qualificação, a retaliação lançada pelo Irã. Tanto aqueles quanto este seriam igualmente culpados, segundo Guterres. O agredido merece a mesma punição que o agressor. O direito à legítima defesa desaparece na declaração de tão alto funcionário. Quando muitos se perguntam sobre as causas da crise das Nações Unidas, a covardia e submissão aos ditames do império por parte de seu secretário-geral oferecem uma boa pista para compreender a origem do problema. Por isso, Trump, aspirante a ditador mundial, propôs, com seu clube de amigos, o Conselho da Paz, estabelecer em Gaza — a Gaza dos palestinos — um gigantesco Mar-a-Lago onde se reunirá esse grupo de megamilionários, fraudadores e pedófilos com a pretensão de administrar uma terra roubada dos palestinos como se fosse própria, substituindo assim o Conselho de Segurança da ONU na gestão cotidiana dessa operação imobiliária. Trump e seus comparsas terão um rude despertar, porque os palestinos não cessarão em sua tentativa de recuperar sua terra.

Contato

Nome
Sobrenome
E-mail
Mensagem
The form has been submitted successfully!
There has been some error while submitting the form. Please verify all form fields again.

Recomendações

Os logotipos exibidos são propriedade de seus respectivos detentores. Uso meramente informativo.