Atilio Boron
Página 12 (09/03/2026)

Na reunião convocada por Donald Trump para anunciar o nascimento do chamado “Escudo das Américas”, o presidente dos Estados Unidos deu uma nova demonstração de seu racismo incontido ao descartar completamente a possibilidade de aprender castelhano — nos Estados Unidos ele é chamado de Spanish, Español, o que é um erro — e qualificar nossa língua como “maldita”. Essa é uma expressão bastante comum na fala cotidiana nos Estados Unidos, mas, em uma reunião com 12 chefes de Estado na qual quase todos, exceto dois — Guiana e Trinidad e Tobago — têm o castelhano como língua oficial, o mínimo que se pode dizer é que foi uma expressão descortês e reveladora do profundo desprezo que o magnata nova-iorquino sente pelos países da América Latina e do Caribe.
Essa atitude não tem nada de novo. Em outras ocasiões, Trump já demonstrou o desdém que sente por nossos países, assim como por muitos outros que compõem o chamado Sul Global. A expressão “países de merda” (shithole countries) foi usada mais de uma vez para se referir àqueles de onde vêm os imigrantes que, em sua paranoia, ele descreve como uma “horda de invasores” composta por narcotraficantes, ladrões, assassinos, estupradores e outros “belos atributos” do tipo. Pessoas que se infiltram em comunidades pacíficas dos Estados Unidos e que, em seu desespero, sacrificam os animais de estimação dos moradores para saciar sua fome.
Mas, se a atitude de Trump merece um repúdio enérgico, a postura complacente de seus anfitriões direitistas e seus sorrisos estúpidos ao ouvirem o autoproclamado chefe do planeta dizer que não aprenderia “seu idioma maldito” merece uma condenação ainda mais contundente. O comportamento deles foi um escândalo, uma vergonha. Foi uma demonstração de abjeto servilismo, de submissão indigna diante do insulto do valentão do bairro. Alguém deveria ter lhe dito que o castelhano é uma das línguas mais belas do planeta, pela riqueza de seu léxico e a musicalidade de suas palavras, que se comparam favoravelmente com quase qualquer outro idioma. Além disso, é uma das línguas que, depois do chinês mandarim e do hindi, possui mais falantes. Mas, ao contrário dessas, o castelhano tem presença geográfica em diversas regiões do mundo, enquanto o mandarim e o hindi são línguas mais localizadas, faladas principalmente na China e na Índia.
O castelhano, por outro lado, expandiu-se por toda a América, tem sua origem na Europa e é estudado e falado em numerosos países. É verdade que, em um mundo cada vez mais interconectado, o inglês se tornou a língua franca do império, primeiro devido à hegemonia global do Reino Unido e depois dos Estados Unidos, o que fez com que, nos negócios, na internet, na cultura, na comunicação social, na diplomacia e até no esporte, o inglês tenha o maior número de falantes. Mas estima-se que haja cerca de 500 milhões de hispanofalantes no mundo, e até mesmo nos Estados Unidos existem regiões e cidades onde o castelhano é claramente a língua predominante.
A atitude desdenhosa de Trump é fruto de seu racismo arraigado e de seu narcisismo exacerbado. Também de sua concepção de poder e de diplomacia. Nesse campo, analistas concordam que sua conduta responde a uma premissa central, sintetizada na expressão: “Kiss my ass and then we talk”, ou seja, “beije meu traseiro e depois conversamos”. Se a Don Vito Corleone era preciso beijar a mão, com Trump é necessário beijar o traseiro como prelúdio de qualquer negociação. E a Argentina tem em seu presidente o indiscutível campeão mundial nessa desonrosa especialidade. Quinze viagens aos Estados Unidos desde o início de seu mandato constituem um recorde inigualável que o consagra como o maior “puxa-saco” do império, para desgraça da Argentina.




