Cada vez menos produção

David Cufré,

Página 12 (21/02/2026),

As importações ligadas ao investimento produtivo registraram em janeiro uma queda alarmante. As compras de bens intermediários, ou seja, de insumos para a elaboração de produtos, despencaram 18,8% em comparação com o mesmo mês de 2025. As de peças e acessórios foram ainda piores: caíram 36,5%. As de máquinas e equipamentos diminuíram 14%.

São dados que antecipam um agravamento do processo de desindustrialização que o país enfrenta. Já não basta nem mesmo o dólar barato para convencer os industriais a arriscar capital para produzir, em um cenário de retração do mercado interno, enquanto as divisas se destinam cada vez mais às importações de bens de consumo, em plataformas como Shein, Temu ou Amazon e na compra de automóveis.

De fato, as compras de veículos no exterior subiram 106,8% em relação a janeiro do ano passado, enquanto a produção nacional de automóveis caiu 30,1% no mesmo mês, em termos anuais. O grupo Stellantis, que produz veículos Peugeot e Citroën, anunciou a suspensão das atividades até março, razão pela qual os trabalhadores da fábrica de Martín Coronado receberão apenas 70% do salário até a retomada das atividades.

As importações de bens de consumo aumentaram 5,8%, e aquelas realizadas por meio desses aplicativos dispararam 95,8%.

Economistas de diferentes perfis concordam em prever um agravamento da crise do aparato produtivo nos próximos meses. “Se as importações não aumentarem, a economia não vai se recuperar. Não estou falando de roupas chinesas nem de pneus. Estou falando de importações de insumos, ou seja, importações relacionadas ao vigor de uma economia”, alertou Carlos Melconian, referência do setor ortodoxo. Mas são justamente essas compras que mais caem, chegando a 36,5% de queda em peças e acessórios, como mencionado acima.

Daniel Schteingart, da Fundar, ex-funcionário da área industrial do governo anterior, destacou que há seis meses a produção industrial não para de cair, enquanto o fechamento de empresas continua — como repercutiu esta semana com o colapso de um gigante como a Fate, após oito décadas de funcionamento — e a perda de postos de trabalho é constante.

“Há perdedores muito fortes, como os setores têxtil, calçadista, couro, vestuário, grande parte da metalurgia, boa parte da indústria automotiva, minerais não metálicos usados na construção, todos com quedas de dois dígitos em relação a 2023. É uma parte substancial da indústria nacional”, descreve o especialista. “Para todos esses setores, a abertura às importações é muito prejudicial. O panorama para os próximos meses não é bom”, acrescenta.

“O cenário mais provável para 2026 é que a contração das empresas industriais e do emprego fabril continue. E os setores que crescerem serão limitados, alguns fornecedores da mineração ou de hidrocarbonetos, mas que não alteram significativamente o panorama geral da indústria”, conclui.


Isso eu já vi antes

Os pontos em comum entre o período atual e o que ocorreu na década de 1990, desde o início do plano de conversibilidade em 1991 até sua explosão em 2001, são evidentes. Dólar valorizado artificialmente, abertura às importações e retirada de incentivos à produção. Por enquanto, uma grande diferença é a disponibilidade de crédito para as famílias, que naqueles anos sustentava de algum modo o mercado interno, ao contrário da situação atual, em que o financiamento não impulsiona o crescimento, mas tende a ser o último recurso de sobrevivência.

Outra coincidência na abordagem das políticas econômicas de Carlos Menem e Javier Milei é a tentativa de atrair investimentos reduzindo os custos empresariais. Isso deveria estimular o investimento e gerar crescimento, mas, tanto antes quanto agora, observa-se que os setores que crescem concentram os lucros, enquanto aqueles que geram emprego são deslocados.


Reforma com desemprego

Uma das apostas mais importantes nos anos 1990 e agora é reduzir o custo do trabalho, o que supostamente deveria destravar o potencial de investimento do setor privado. Com Menem, os resultados não poderiam ter sido piores. Pela semelhança dos processos, não se prevê algo diferente atualmente.

Em 1991, quando foi aprovada a primeira grande reforma trabalhista do menemismo, impulsionada por Domingo Cavallo e sua equipe, a taxa de desemprego era de 6,0%. A chamada “flexibilização trabalhista” consistiu em várias medidas que se repetem hoje:

  • Criação de contratos temporários precários.
  • Estabelecimento de Procedimentos Preventivos de Crise para reduzir as indenizações pela metade.
  • Limitação do direito de greve.
  • Permissão de acordos por empresa.
  • Ampliação do período de experiência e dos estágios.
  • Autorização para pagamento de salários com vales de alimentação ou supermercado.

O resultado dessa lei, dois anos depois, foi um aumento do desemprego para 9,3%. Ficou claro que mudanças regressivas nas condições de trabalho não geram emprego, mas transferem renda dos trabalhadores para os empresários.

Em 1993, foi introduzida uma segunda reforma trabalhista no âmbito da Lei das Pequenas e Médias Empresas, com as seguintes regras:

  • Aumentos salariais vinculados à produtividade.
  • Redução da base de cálculo das indenizações por demissão.
  • Jornada de trabalho de até 12 horas sem pagamento de horas extras e autorização para fracionamento das férias.

Dois anos depois, a fórmula também não funcionou. O desemprego atingiu um recorde de 18,4% em 1995.

O governo de Fernando de la Rúa também tentou outra reforma precarizante, conhecida como Lei Banelco, incentivada pelo FMI, mas seu governo não resistiu à crise e o colapso elevou o desemprego a 25%. Ou seja, com todas as reformas trabalhistas ao longo de uma década, o desemprego subiu de 6,0% no início para 25% no final.

Quando Néstor Kirchner assumiu a presidência, estava em vigor a dupla indenização por demissão, que ele manteve até setembro de 2007. Ao mesmo tempo, começou a desmontar as leis trabalhistas do período menemista e do governo da Aliança. Ao final de seu mandato, o desemprego havia caído para 7,5%.

Cristina Fernández de Kirchner aprofundou esse processo — exatamente o oposto do atual — ampliando direitos trabalhistas, com leis como a do trabalhador rural e a das trabalhadoras domésticas. Quando deixou o poder, o desemprego era de 5,9%.

As evidências históricas são contundentes. Mas Milei tentará novamente o caminho que fracassou.

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