As relações internacionais: mais fáceis ou mais difíceis?

Jiang Shixue

(20/02/2026)

Enquanto disciplina acadêmica, as relações internacionais estão se tornando mais fáceis ou mais difíceis? Para responder a essa questão, é necessário decompor o campo em três dimensões analíticas: (1) a análise da conjuntura internacional; (2) a formulação de prognósticos; e (3) a proposição de alternativas ou recomendações.

A análise da situação internacional não apresenta grande dificuldade e tende, inclusive, a tornar-se cada vez mais acessível. Isso se deve ao fato de que praticamente todos podem acompanhar acontecimentos internacionais por meio das redes sociais e de fluxos informacionais em tempo real. Não surpreende, portanto, que se diga que até motoristas de táxi ou comerciantes de mercados populares demonstrem familiaridade com temas internacionais. Um reconhecido acadêmico chinês chegou a caracterizar os estudos internacionais como uma “terra baixa” do campo acadêmico, aludindo ao reduzido “limiar de entrada” da área — isto é, à possibilidade de qualquer indivíduo nela se engajar.

Todavia, os estudos internacionais não se limitam à análise da conjuntura global; abrangem também a previsão de desdobramentos e a formulação de alternativas políticas. Sob esse prisma, o campo não está se tornando mais fácil, mas progressivamente mais complexo.

No passado, pesquisadores de relações internacionais eram frequentemente questionados: por que não previram o colapso da União Soviética ou a queda do Muro de Berlim? Hoje, novas indagações se impõem: por que não se antecipou a “operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia? Por que não se previu uma possível intervenção dos Estados Unidos na Venezuela? Pode-se antecipar o que ocorrerá com Cuba diante do recrudescimento das sanções norte-americanas? É possível estimar se e quando os Estados Unidos recorrerão ao uso da força contra o Irã? Como evoluirão as relações transatlânticas? Quem triunfará nas próximas eleições presidenciais no Brasil?

De fato, a formulação de prognósticos é extraordinariamente difícil. A previsão acurada exige acesso a informações suficientes e confiáveis. Na ausência dessas condições, mesmo um acerto eventual não passará de mero acaso — comparável a um golpe de sorte.

No final do ano passado, participei de um programa televisivo sobre as relações entre Estados Unidos e Venezuela. O apresentador perguntou se haveria uma invasão norte-americana. Respondi indagando o que se entendia por “invasão”: se significasse o envio de tropas terrestres, tal cenário me parecia improvável. Contudo, poucos poderiam imaginar a hipótese de uma operação aérea com o objetivo de capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Segundo relatos, apenas Trump e um círculo restrito de assessores tinham conhecimento dessa operação. Nem mesmo membros do Congresso estavam informados. Evidentemente, acadêmicos tampouco antecipariam tal possibilidade.

No que concerne às recomendações substantivas, o grau de dificuldade é ainda maior. Diante de violações flagrantes do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, quais respostas são viáveis? Frente ao tratamento dispensado à Venezuela e a Cuba, que alternativas existem? Se o Panamá, instigado por Washington, adota práticas controversas em portos vinculados ao Canal, como reagir? Diante de uma eventual aplicação de uma “Doutrina Donroe” na América Latina, que estratégias podem ser concebidas? Se os Estados Unidos buscarem controlar a Groenlândia, quais seriam as respostas possíveis? Caso recorram ao uso da força contra o Irã, que opções restariam? Se estruturarem um bloco preferencial de comércio de minerais críticos, que medidas poderiam ser adotadas? Elaborar respostas realistas e eficazes para tais questões revela-se, sem dúvida, extremamente desafiador.

Por que a previsão e a formulação de recomendações são tão complexas nos estudos internacionais? Em primeiro lugar, porque acadêmicos frequentemente carecem de acesso a informações suficientes ou de especialização aprofundada em determinados domínios. Em segundo lugar, porque os Estados Unidos vêm se comportando de forma cada vez mais irresponsável e imprevisível, dificultando análises baseadas em parâmetros convencionais.

Se a incerteza constitui a única constante, estudiosos da área devem considerar algumas orientações caso pretendam formular prognósticos e propor respostas estratégicas.

Primeiro, é imperativo renovar métodos de pesquisa e reduzir a dependência de paradigmas tradicionais. Os Estados Unidos apresentam tendências cada vez mais hegemonistas ou erráticas no sistema internacional. O próprio Trump afirmou, em entrevista ao New York Times, que apenas sua própria moralidade poderia contê-lo. Tal declaração sugere que, no tocante às futuras ações norte-americanas, praticamente nenhum cenário pode ser descartado. Torna-se, portanto, necessário ajustar perspectivas analíticas e preparar-se inclusive para cenários adversos.

Segundo, é preciso valorizar pesquisas empíricas e aplicadas, sem, contudo, desconsiderar o papel da teoria. A negação absoluta da reflexão teórica seria equivocada. Entretanto, parte da produção acadêmica privilegia formulações excessivamente herméticas, retoricamente elaboradas, porém substantivamente frágeis, repletas de jargões e terminologias opacas. Acadêmicos e revistas da área deveriam recordar a advertência de Theodore Roosevelt: manter os olhos nas estrelas, mas os pés no chão. Em outras palavras, a elaboração teórica é legítima, desde que permaneça ancorada na realidade empírica.

Terceiro, é fundamental incentivar intercâmbios e cooperação acadêmica em escala global. Em uma era na qual uma única potência pode agir de forma imprevisível, nenhuma perspectiva nacional isolada é capaz de apreender a totalidade do quadro. O diálogo genuíno com estudiosos de diferentes regiões — especialmente do Sul Global — permite integrar evidências, confrontar pressupostos e qualificar julgamentos. Um pesquisador em Pequim pode identificar aspectos ignorados por um colega em Brasília; um acadêmico em São Paulo pode perceber fenômenos invisíveis a um pesquisador em Xangai. Tais interações contribuem para superar vieses e provincialismos, substituindo “câmaras de eco” por processos de revisão crítica em escala global. Se o comportamento de um único país se converte na principal fonte de incerteza, então a inteligência coletiva das nações constitui a melhor esperança para navegar em meio à ambiguidade.

Em síntese, as ferramentas para a produção do conhecimento sobre as relações internacionais devem ser transformadas, de modo a se adaptarem às mudanças no comportamento dos Estados Unidos.

Jiang Shixue

Jiang Shixue é Pesquisador Sênior da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS). É também Professor Distinto da Universidade de Xangai, da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau, da Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan e da Universidade Normal de Hangzhou, além de Professor Convidado da Universidade de Anhui, da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Chongqing. Atualmente, exerce os cargos de Vice-Presidente do Conselho Chinês de Especialistas em Think Tanks dos BRICS, Vice-Presidente da Sociedade Chinesa de Economias Emergentes, Vice-Presidente do Comitê Consultivo da Associação de Universidades Chinesas para os Estudos Regionais, Co-Presidente da Associação para Pesquisa sobre Pequenos Estados Insulares e Conselheiro da Associação Chinesa de Estudos da América Latina e da Associação Chinesa de Estudos da História da América Latina. Entre 2023 e 2025, foi Presidente do Conselho de Estudos Latino-Americanos da Ásia e Oceania. De 1997 a 2008, atuou como Vice-Diretor-Geral do Instituto de Estudos Latino-Americanos da CASS e, de 2009 a 2016, como Vice-Diretor-Geral do Instituto de Estudos Europeus da CASS. No mesmo período, foi também Chefe da Divisão de Estudos Internacionais do Comitê de Professores da Escola de Pós-Graduação da CASS. Seus campos de pesquisa incluem política externa chinesa, relações internacionais, economia mundial,

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