Notas sobre a diplomacia coercitiva dos Estados Unidos

Jiang Shixue,

Professor distinto da Escola de Relações Internacionais, Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan

(05/02/2026)

Se uma única expressão pudesse resumir as características da política externa dos Estados Unidos, ela seria: diplomacia coercitiva.

O que é diplomacia coercitiva? Diferentes pessoas oferecem definições distintas, mas o significado essencial é simples: trata-se de uma diplomacia da força, ou dos “músculos”. Em outras palavras, a diplomacia coercitiva se apresenta sob a aparência de práticas diplomáticas convencionais, mas se apoia no poder militar ou econômico para forçar outro país a se submeter.

Como a única superpotência do mundo, os Estados Unidos praticam com frequência a diplomacia coercitiva contra qualquer país, a qualquer momento. Os métodos de coerção são variados e numerosos. Até mesmo países que mantêm relações estreitas com os EUA, por vezes, tornam-se alvos dessa prática.

Um exemplo ilustrativo ocorreu em 25 de abril de 2021, quando o jornal dinamarquês Politiken revelou que a embaixada dos Estados Unidos na Dinamarca havia contatado o periódico exigindo garantias de que não utilizava equipamentos técnicos — como roteadores ou modems — fornecidos por empresas chinesas, incluindo Huawei, ZTE, Hytera, Hikvision e Dahua Technology. Caso contrário, a embaixada poderia cancelar sua assinatura. Isso demonstra que até mesmo a assinatura de um jornal pode se converter em instrumento da diplomacia coercitiva dos EUA.

Em seu segundo mandato, o presidente Trump passou a integrar de maneira crescente as tarifas comerciais à diplomacia coercitiva. Ele as utiliza não apenas como instrumentos de proteção econômica, mas também como ferramentas centrais dessa diplomacia, inclusive contra países europeus.

Aqueles que os Estados Unidos há muito classificam como “inimigos”, “adversários” ou “concorrentes” têm sido vítimas recorrentes da diplomacia coercitiva norte-americana, sendo Cuba um dos exemplos mais emblemáticos.

Em fevereiro de 1962, os Estados Unidos iniciaram um bloqueio econômico abrangente — referido oficialmente como embargo comercial — contra Cuba. Essas sanções permanecem em vigor até hoje, tornando-se as mais duradouras já impostas por uma grande potência contra um país fraco na história moderna das relações internacionais, apesar de a Assembleia Geral das Nações Unidas ter aprovado inúmeras resoluções exigindo sua suspensão.

Recentemente, em uma decisão surpreendente, a Suprema Corte do Panamá declarou inconstitucional a concessão outorgada a uma empresa sediada em Hong Kong para operar portos estratégicos ao longo do Canal do Panamá. A decisão causou forte repercussão na China e em outros países com vínculos econômicos com a América Latina. Anteriormente, o Panamá havia se retirado da Iniciativa Cinturão e Rota da China. Não há dúvida de que a diplomacia coercitiva dos Estados Unidos está por trás das ações do Panamá.

Da mesma forma, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não constitui apenas um ato de diplomacia coercitiva, mas também uma invasão militar contra uma nação soberana.

Mais recentemente, o presidente Trump voltou a manifestar sua ambição de adquirir a Groenlândia, desta vez com um tom mais duro e coercitivo. Como observaram diversos comentaristas, ainda que ele tenha recuado do uso direto da força militar, a coerção sem invasão armada continua a corroer o direito internacional. Até o momento, não está claro se sua diplomacia coercitiva alcançará êxito.

Um comentário de Daniel Larison, editor da revista The American Conservative, é particularmente elucidativo. Ele argumenta que a diplomacia coercitiva do governo Trump não é diplomacia alguma, mas sim uma sucessão de insultos, sanções, tarifas e ameaças que pouco produzem além de perturbação e sofrimento. O jornalista da Associated Press, Matthew Lee, refere-se a ela simplesmente como “diplomacia da coerção”.

Em contraste evidente, a China propôs a construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade. Para que esse ideal se concretize, a comunidade internacional precisa eliminar a diplomacia coercitiva.

A cultura chinesa sustenta o princípio de que “não se deve fazer aos outros aquilo que não se deseja para si mesmo”. A China jamais possuiu um gene de hegemonia ou um impulso expansionista, nem jamais coagiu qualquer país. Diante de interferências externas, as ações chinesas constituem contramedidas legítimas e legais, destinadas a proteger os interesses legítimos da nação e a preservar a equidade e a justiça internacionais. A China nunca foi à porta de outros países para provocar conflitos, nunca estendeu as mãos para dentro da casa alheia e certamente jamais ocupou uma única polegada de território estrangeiro.

A invenção, a patente e os direitos de propriedade intelectual da diplomacia coercitiva pertencem, indiscutivelmente, aos Estados Unidos, que se engajam abertamente em sanções unilaterais, jurisdição extraterritorial e interferência em assuntos internos de outros países. A retórica norte-americana de “lidar com outros países a partir de uma posição de força” ou de buscar a “paz por meio da força” consiste, em essência, em intimidar os mais fracos por meio do poder militar.

Ao que tudo indica, o planeta em que vivemos necessita de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade — e não de uma diplomacia coercitiva e imposta pela força.

Jiang Shixue

Jiang Shixue é Pesquisador Sênior da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS). É também Professor Distinto da Universidade de Xangai, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e da Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan, além de Professor Convidado da Universidade de Anhui, da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Chongqing. Atualmente, é Vice-Presidente do Conselho Chinês de Especialistas para Think Tanks dos BRICS, Vice-Presidente da Sociedade Chinesa das Economias Emergentes, Vice-Presidente do Comitê Consultivo da Associação das Universidades Chinesas para a área de Estudos Regionais, Co-Presidente da Associação para Pesquisa sobre Pequenos Estados Insulares e Assessor da Associação Chinesa de Estudos Latino-Americanos e da Associação Chinesa de Estudos de História da América Latina. Foi Presidente do Conselho de Estudos Latino-Americanos da Ásia e Oceania (2023–2025). Entre 1997 e 2008, foi Vice-Diretor-Geral do Instituto de Estudos Latino-Americanos da CASS e, de 2009 a 2016, Vice-Diretor-Geral do Instituto de Estudos Europeus da CASS. Também atuou como Chefe da Divisão de Estudos Internacionais do Comitê de Professores da Escola de Pós-Graduação da CASS entre 2009 e 2016. Suas áreas de pesquisa incluem política externa chinesa, relações internacionais, economia mundial, governança global, América Latina e Caribe.

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